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“Vagabundagem”: um ideal de trabalho

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Quem faz greve é vagabundo. Gente de bem, pai de família, trabalhador… faz hora extra. E, quando o faz ganhando pouco é mártir. Ganhar nada também não é bom. É ser escravo, “povo que não tem virtude”. E disso temos vergonha (do povo da senzala, nunca da casa grande). Ganhar muito, pode. Só não é legal transparecer. Tem que pechinchar na padaria, chorar quando cobrar alguém pelo aluguel na casa da praia (que só dá prejuízo), dizer sempre que os negócios vão mal e, quando vão bem, dizer que já foram melhores.

Cresci nesse mundo “da fé e do trabalho”, onde “só não arruma emprego quem não tem vontade de trabalhar”, onde a simplicidade do milionário é provada por quão pão duro ele é para comprar roupas, onde o tempo das vacas gordas é só uma lenda.

Aqui a palavra “trabalhador” como substantivo é discurso da esquerda. “Trabalhador e trabalhadora”, no megafone, em cima do caminhão, daquele lá, que faz piquete e não deixa o pessoal entrar na firma. O mais comum é usar trabalhador como adjetivo para elogiar: homem trabalhador, mulher “trabalhadeira”. Entre inglês e curso profissionalizante, coloca-se o guri direto no que vai ter alguma serventia: “vai para o SENAI, piá”. Esporte e cultura? “Não. Estamos cortando supérfluos. É a crise…”

Nesse cenário, eu ganhei admiração começando a trabalhar aos 14. Perdi, anos depois, quando escolhi jornalismo, profissão para trabalhar sentado, ganhar muito menos que o engenheiro e mal  sustentar a família. “Só se tu fosse para a Glo… Ah, não quer?…”

Consertei a minha imagem trabalhando duro. No jornal, pelo menos no dia de fechamento, chegava em casa bem tarde: nunca antes da meia-noite, várias vezes depois das 3h e algumas quando os outros trabalhadores já tinham “pegado no batente”. Poderia ter ganhado uma homenagem, mas não fiz por merecer: depois dessas noitadas, dormia até o meio-dia – coisa de vagabundo.

Hoje trabalho no meu próprio negócio (vai bem, obrigado). Renunciei ao plano de saúde empresarial (“oh, não!”); à carteira assinada (“e a aposentadoria?”); ao peru de Natal na bolsa térmica (“nãããããoooo”). Não ganho o suficiente para levantar suspeitas de envolvimento com o tráfico e faço meus horários. “Hum…”, já vêm as caras de decepção. Como empresário, não reclamo dos feriados; como trabalhador, não os comemoro. Quase nunca ‘bato ficha’ antes das 9:30; já fui visto num café do centro à tarde; um dia fui pra casa porque tava muito calor. Pronto: confiscaram minha medalha de trabaiadô. E não importa a hora que eu saia ou quantas vezes leve trabalho para casa em uma jornada de mais oito, nove, dez horas. Porque, aliás, trocar a noite pelo dia, a menos que como estratégia para ganhar adicional noturno, também é vagabundagem.

Tirar férias, então, é rir na cara do trabalhador, especialmente se tu é patrão (ainda que só de ti mesmo). Se te encontrarem na praia ou na frente de casa tomando um chimarrão no sábado, certo que vão soltar um “e essa folga?”, para dizer que tu é um “boa vida”, e isso tá longe de ser elogio. Daí tu justifica que “a firma tá mal das pernas, não tem mais serão, tão botando pra rua a fuzel…”. Se for dia de semana, fica tão sério que não cabe nem piada.

Eu não tive muitos empregos – “não sou desses de sujar a carteira” – mas pude ter experiências que me ajudam a fazer escolhas. Já me arrependi de ter trabalhado em lugares onde era só trabalho, desses que motivam o compartilhamento dos memes de “é sexta!”. E já trabalhei onde nunca foi trabalho, onde a gente nem olha para o relógio, não tira extrato do banco de horas e recebe muito além do salário.

Não estou sozinho nisso de gostar do que faço e fazer do meu jeito. Tenho três amigos que são bons exemplos de “vagabundos” e servem de inspiração para essa tarde de greve, de folga ou de trabalho normal, o que é mais provável.

O “deitado” nunca gostou de trabalhar. Matava tempo, gazeava as tarefas, fazia sem gostar e sem reclamar. Há dois anos, perdeu o emprego e nunca mais tentou achar. Depois de concluir uma faculdade dessas “boas para arranjar trabalho”, descobriu do que gosta e decidiu se dedicar a isso para um dia trabalhar por prazer. Agora, quando perguntam “o que tu tá fazendo?”, para saber se ele finalmente “largou currículos”, ele responde: tô estudando. Tá nem aí para as caras de “só?”. E eu acho que ele nunca “fez” tanto.

O “encostado” trabalha em casa, sem horários fixos, e cuida do filho, enquanto a mulher trabalha fora. Também pouco se importa se acharem que ele “vive nas costas da coitada”. Sem intervalos, tá fazendo papel de pai (o de mãe é ela mesma que faz, quando chega), tá educando bem aquele guri.

O bon-vivant foi, até semana passada, um exemplo de “homem trabalhador”. Construiu uma empresa sólida, lucrativa e em dia com as obrigações. Mas agora encheu o saco. Vendeu e não quer fazer mais nada. Corre de quem sugere qualquer servicinho, “nem que seja só para passar o tempo”. Quando decidiu se desfazer da firma, transformou parte do pátio em horta. É o único trabalho que ele se dispõe a fazer. A primeira plantação de verduras foi atacada por uma praga e esse é o máximo de estresse que aquilo vai render. Ele faz piada do quão pouco acha que trabalhamos, um deboche de praxe, herança de uma vida inteira como trabalhador. Mas algo está mudando. Ele ri também se me vê trabalhando em uma sexta-feira às 19h. E essa risada é porque ele já não precisa mais disso. Outro dia ele me disse: “O trabalho dignifica? Porra nenhuma!”

 

 

 

 

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