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QUANDO PLANTAR O BEM É SEMENTE DO MAL

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Se uma série está na 6ª temporada, spoiler da segunda não é spoiler, certo? Então, outro dia Olivia Pope me deixou decepcionado por um erro grave que ela cometeu e, ao mesmo tempo, solidário, a ponto de querer dar um abraço e dizer que tudo bem. Só que não era tudo bem. Ela discutia com o mão direita do presidente dos Estados Unidos sobre um pauzinho (um punhado de votos) que eles mexeram para garantir que o homem mais íntegro e qualificado para o cargo que eles conheciam pudesse vencer a eleição (sem nunca saber da fraude, portanto, inocente (?)). Corrupção óbvia e eu ali cogitando absolver ou transformar em culposo o que era doloso. Não me solidarizei por quão pequena (e talvez desnecessária) era a quantidade de votos que eles alteraram. Me solidarizei porque a intenção (dela, pelo menos) era absolutamente boa.

Eu fiquei um tempo ali, me colocando no lugar dela pra entender o que eu teria feito na mesma situação. E, como não sou Olivia Pope e isso é ficção, decidi que não teria feito. Mas é fácil decidir isso hipoteticamente.

O assunto desse texto nem é ética, na verdade. Trata sobre o quanto uma boa intenção pode dar muito errado e justificar o porquê do inferno estar cheio delas. O que eu quero questionar aqui é se um “desculpa, foi sem querer” deveria ter perdão automático quando o “sem querer” for legítimo (não era o caso da Olivia, um clássico “sem querer querendo”).

Lembrei dessa cena do dilema de Olivia na semana passada, depois de um scandal que minha vizinha fez. Eu tinha terminado de arrancar todas as plantas de um vaso no pátio e plantar novas. Sobraram três e, como a vizinha já me deu mudas de coisas outras vezes, decidi retribuir. Mais: não quis nem incomodá-la naquele fim de tarde. Em vez de chamar, estiquei o braço e soltei as plantas no canteiro da varanda dela, acima da minha cabeça. De onde eu estava, dava pra saber que caíram na terra, mas não dava pra ver.

Ela viu, uma meia hora depois e, aos gritos, deixou claro onde tinham caído: “quem botou essa merda em cima da salsa que eu plantei?”. Prontamente, abri a janela para me acusar, pedir desculpas e acabar com isso, porque somos gente civilizada. Nada feito: ela continuou berrando por causa da salsa recém-brotada e, mesmo depois da minha janela fechada e do “presente” retirado de lá, seguiu distribuindo ofensas suficientes para minhas futuras gerações. Viramos inimigos: ela mandou eu nunca mais tocar em coisa nenhuma dela (a piada pronta não era a intenção) e eu me desculpei de novo e prometi não fazer gentileza alguma nunca mais.

Eu tava bem Olivia Pope, dentro de casa sofrendo um pouco e tirando a terra das unhas pra sair, enquanto ouvia os argumentos dela, que agora também gritava com o marido porque ele estava ao meu favor (“it´s handled”, cof cof cof). 1. “Estavam nascendo”, 2. “Eu plantei, reguei, cuidei todos os dias”; 3. “Eu não tenho condições de descer escadas e buscar tempero na horta ou no mercado”; 4. “Ele deveria ter perguntado”. Para cada argumento, eu teria outra boa intenção. Mas não dei.

Depois de uma hora de gritos (o que eu ouvi, porque ela ainda tava gritando quando saí), ela me parecia ter razão em cada item. Parecia perfeitamente justa no seu julgamento do meu crime culposo. E tinha uma coragem quase insana de manifestar a raiva que eu, no lugar dela, teria substituído por um “tudo bem/ elas vão continuar brotando/ não foi nada/ obrigado pelas mudas” enquanto fizesse minhas ofensas mentais.

A senhora irritada da casa ao lado sintetizou para mim dois dilemas: do lado de cá, a boa intenção (ainda que burra), do lado de lá, a atitude correta (ainda que dura). Dos dois lados do muro, prejuízos, porque, mesmo a “atitude correta” tem seus efeitos colaterais: admiro a honestidade dela consigo mesma? Sim. Levarei para ela um pedaço de qualquer bolo que eu fizer? Jamais.

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