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Pelo direito de ter um coelho

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        Desde criança, nunca gostei de ser igual a todo mundo. Não gostava das brincadeiras das festinhas de aniversário que as outras crianças adoravam e queria me vestir com roupas que fossem diferentes das que todos estavam usando.

        Sempre quis ter um coelho de estimação. E ninguém nunca levou essa minha vontade a sério. Minha mãe proibia e meu pai pensava em assá-lo.

       Pouquíssimos meses depois de sair da casa dos meus pais, comemorei minha entrada oficial na vida adulta trazendo um coelho para a minha nova casa. Aqui, ninguém o proibiria nem o colocaria no espeto.

        Apesar de eu já querer isso há muito tempo, não, não foi uma decisão pensada e minuciosamente analisada, como todos dizem que você deve tomar na hora de adotar um animal de estimação. Foi uma decisão baseada no mais puro e simples impulso. E numa tarde ensolarada de verão, um coelhinho branco se mudou para o meu apartamento sem eu nem saber direito aonde ele iria dormir, comer, passar o dia. Ele só chegou.

        Após uma breve discussão com meu namorado, tivemos o insight maravilhoso de que ele se chamaria Donnie, em uma singela homenagem ao nosso filme favorito, Donnie Darko.

        Hoje, Donnie anda pela casa alegre como um cachorro e silencioso como um gato. Deita no sofá e nos faz companhia na hora de ver televisão, fica nos meus pés enquanto cozinho e dorme embaixo da mesa do escritório enquanto trabalho. Não deixamos ele em gaiola (outra decisão que as pessoas julgam). Ele é tipo o Dobby, do Harry Potter (“Dobby is a free elf”). Dobbie, aliás, poderia ser a segunda opção de nome para ele, já que ele seria um “free bunny”.

        Ele tem um cantinho para dormir, e, quando estamos em casa, fica grudado na gente o tempo todo (a não ser depois que ele come ração, momento que ele tem um boost de energia e sai pulando e correndo freneticamente pelos cômodos).

“Vocês têm um coelho solto pela casa?!” perguntam, espantados. (Temos.)

“Ele tá ficando gordinho, né? Quando vamos botar ele na panela?” (Assustadora a quantidade de vezes que escuto isso. E sempre devolvo com um humor negro “Quando vamos cozinhar o teu cachorro?”, seguido de um “hehe” para não ficar muito pesado).

“Nossa, tu come picanha mas tem um coelho?!” (Essa é a que eu mais odeio, porque como já diz meu pai “O que tem a ver o c* com as calças?”)

        Apesar de eu ter me estendido até aqui falando sobre o direito de ter um coelho de estimação, gostaria de deixar claro que esse texto não é sobre coelhos. É sobre poder fazer o que você tem vontade, é sobre ser livre para tomar suas decisões, é sobre poder ser diferente dos outros sem que te encham o saco.

        Nem vou tentar defender o direito de poder fazer isso “sem ser julgada”, porque as pessoas, não importa o que você faça, vão te julgar, sempre. Mas pelo menos pelo direito de ser respeitado nas suas decisões.

        Não, nem todo mundo precisa se vestir da mesma forma, ir para os mesmos lugares, gostar das mesmas coisas, ter filho, ter cachorro ou ter gato. Tenho uma amiga que tem um furão e uma outra que tem um lagarto e aranha, e elas estão entre as melhores pessoas que eu conheço. 

        E sei que elas, assim como eu, não veem a necessidade de todo mundo ter, fazer e ser a mesma coisa, como se houvesse só um padrão a ser seguido. Muita gente pensa que existe só o preto e branco, mas como disse um professor uma vez, existe uma infinidade de tons de cinza (com o perdão do uso desse trocadilho) no meio deles. 

        Tudo bem também se você quer ficar só com o preto e branco, que você já conhece, mas tente, pelo menos uma vez na vida, sair dessa sequência e abrir a sua cabeça. É mais divertido e, acima de tudo, libertador. 

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