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Passa uma terceira

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R.I.P. canteiros e tachões da pista

 

— Ai meu Deus, já tô nervoso.

Diz, enquanto coloca o cinto e segura no puta merda bem firme.

— Pai, por favor, o carro nem está ligado ainda e estamos dentro da garagem. Solta esse puta merda.

— Não consigo.

— Ok. Vou sair de frente, porque não sei descer a rampa de ré.

O pai vira os olhos. Sabe que aquelas manobras vão demorar o triplo do tempo que levaria para sair de ré.

— Quando é que tu e a tua mãe vão aprender a ‘andar para trás’? Já disse, é só olhar nos espelhos. Mas mulher é assim. Usa o espelho pra retocar o batom…

Diz, sendo ignorado por uma motorista concentrada em não arrancar fora (de novo) parte dos canteiros do pátio.

Sete minutos depois, saem pelo portão.

— Começou oficialmente o pesadelo.

— Poxa, pai, baita incentivo…

— Para isso servem os pais. Meu Deus do céu. Passa uma terceira.

— Pai, tu prometeu que dessa vez não ia chamar Deus tantas vezes.

— Aham. Agora, passa a terceira.

Diz, dessa vez, um pouco mais alto.

— E também que não ia gritar

— Isso eu já não posso garantir. Agora, TERCEIRA.

— Tá, tá, passei, tá feliz?

— Feliz não define meu estado atual. Olha a lombada, olha a lombada, REDUZ!

TUM. Os dois pulam dentro do carro e batem ligeiramente a cabeça no teto.

— Ai desculpa, não deu tempo de reduzir.

Pai, com as mãos na cara:

— Ai os amortecedores… Já te ensinei MIL vezes, RE-DUZ AS MAR-CHAS.

— Sim, sim, na próxima vou tentar. Não precisa falar com essa separação de sílabas.

— E, na curva, tira o pé do acelerador. Tipo AGORA.

Tarde demais para o conselho, e a curva é feita um pouco rápido demais. Há um leve cantar de pneus.

— Meu pai do céu, Rubinho Barrichello teria inveja dessa curva, minha filha.

— Obrigada.

— Não foi um elogio.

— Tá, pai, tu não está sabendo me dar um reforço positivo aqui.

— Ih, papo de psicóloga de novo… que reforço positivo o que, na minha época, a gente aprendia apanhando e

TUF. Ele é interrompido quando o carro se inclina para um dos lados.

— Cacete, o que foi isso? Ele pergunta, olhando para trás, à procura de um ferido.

— Ah, sei lá…

— O cordão. Tu acertou o cordão! De novo.

— Ai, isso é uma camionete, a gente nem sente quando passa em cima de um cordãozinho.

— Meu Deus, imagina quantos cordões ela já não atropelou…

Diz, como se estivesse conversando com outra pessoa no carro.

— E cachorros, imagina quantos cachorros!

— Nossa, que dramático.

— Quero ver agora parar nesse morro. Lembra do que eu já te ensinei. Ergue um pouco o pé da embreagem, tira do freio e acelera. Mas acelera!

— Ai, eu sempre fico nervosa nessa parte. Por que essa merda de sinaleira sempre tem que estar fechada? Será que não pensam nos motoristas?

— Não, porque todo mundo sabe arrancar no morro.

— Tá, vai abrir, ai Jesus. Embreagem… O carro treme um pouco.

Ele grita:

— Acelera, acelera!!

— Ai colou um carro atrás de nós! Não consigo com essa pressão!

IIIIIC. Ela puxa o freio de mão.

Ele põe as mãos na cara mais uma vez e assume o tom decepcionado:

— Quando é que vai aprender….?

Depois de arrancar, com a ajuda do freio de mão (e de, novamente, um leve cantar de pneus), eles prosseguem.

— Nada disso aconteceria se a gente morasse numa cidade plana tipo Rio Grande, ou sei lá qual outra cidade desse Estado que é plana… Tá, deixa eu me concentrar, estamos chegando no objetivo final.

— Me diz quem é que tem objetivo de andar pela Olavo Bilac…

— O objetivo não é “andar pela Olavo Bilac”. O objetivo é conseguir passar naqueles tachões da pista sem atropelá-los.

— Ai, ai, ai…

— Dizem que o segredo é não pensar muito…

— Claro, esse também é o segredo para engravidar.

— Oi?

— Nada. Mira bem os pneus. Não tem como errar, é gigante o espaço.

— Certo, mirar bem, ah, tá facinho, vai dar, vai dar! Ai que emoção!

RATATATATATA

— Dio Cristo, será que perdemos as calotas do carro?

Ele olha novamente para trás, à procura dos estragos.

— Se foram os amortecedores, com certeza absoluta. E os tachões.

— Tá, não foi dessa vez. Mas semana que vem a gente tenta de novo, tá?

— Ai meu coração… Agora PASSA UMA TERCEIRA.

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