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OS ESPECIALISTAS

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Minha mulher passou por uma cirurgia bariátrica. Depois de quase um ano resistindo, metade dele convicta em não fazer, decidiu. Decidiu que era a melhor (única?) maneira de reverter o diabetes. Decidiu que tomava remédios demais para os seus 30 anos. Decidiu ter uma vida mais longa e melhor. Com a cirurgia, deixaria também a hipertensão e ganharia mais um pacote de benefícios à saúde. Perderia peso? Certamente. Mas esse não era o objetivo. Eu mesmo só tive certeza disso quando vi quase nenhuma reação dela aos dígitos perdidos na balança e a euforia na primeira checagem do nível de glicose: 79. Mesmo que não perdesse um grama, a meta havia sido alcançada. Fabíola estava saudável e feliz. Para mim, esse era o único objetivo.

Quem pesquisa, ouve médicos, faz uma maratona de exames durante um ano antes de decidir algo sabe muito sobre o que quer. Ela segurou a notícia até  quase uma semana antes da internação, porque, embora tivesse sido preparada para isso também, não estava pronta para uma só coisinha: a opinião dos outros.

Ainda que ela tenha lido muito a respeito, pesquisado os diferentes métodos, sabido dos prós e contras, ouvido segundas, terceiras, quartas opiniões (especializadas), encontrou, nessa semana do anúncio, quem parecesse saber mais: doutores em gastroplastia, experts em dietas, descobridores da reversão natural do diabetes, mestres em palpite furado.

Indicaram dietas infalíveis (como se o caso fosse); mostraram “O Triste Caso de Leandro Hassun” e “Romário: O FIM”, “best sellers” que ela já sabia de cor; falaram de uma sobrinha da vizinha que morreu, de uma tia que ficou em coma, de uma parente que “envelheceu, enrugou, ficou ‘chupada’. E tiveram a cara de pau de dizer “dá pra emagrecer sem isso” enquanto seguravam o quinto pão de queijo, naquele aparador que a barriga faz quando a gente senta.

Não só opinaram como insistiram. Houve quem apontasse a falta de vontade, o desejo de um caminho fácil, a futura ‘perda da alegria de viver’, a irresponsabilidade de ‘colocar-se em risco por motivo estético’. Esses, se tivessem prestado atenção na opinião dela (a única que importa quando o assunto é O CORPO DELA), talvez tivessem sido menos enfáticos, menos ignorantes, menos inconvenientes.

Acontece toda hora. Quando abri uma empresa, tive que passar por uma junta de ‘especialistas’ em crise, economia, gestão. Todos me mostrando os caminhos de treva por onde eu andaria até encontrar, logo ali, o abismo do fracasso. Um cara planejou durante 3 anos e mudou-se para outro país, mas não sem ouvir ‘lá tu vai ser como um senegalês aqui’. Uma mulher teve que se puxar nas justificativas para ganhar a ‘permissão’ para o divórcio:  “Tu vai jogar tudo pro alto?”(Era tudo o que ela queria. Há anos). Outra ouviu: “silicone? Tu nem precisa. Por que tu não investe em uma plástica no nariz?” (ela é bem feliz com/dona do seu próprio nariz).

Acontece contigo também? Então, vê se tu compartilha da minha opinião. Se a notícia fosse ruim, as opiniões teriam sido mais brandas, não? Bati o carro. Perdi o emprego. Tenho câncer. Tudo isso desperta mais empatia, menos dedo na cara. Por exemplo: se, em vez de uma cirurgia curativa/preventiva fosse uma obrigatória como amputar um pé… Ninguém ousaria dizer não, né? “Tem todo meu apoio. Conheço clínicas ótimas para a prótese… tenho um amigo que amputou e anda super bem… viu o caso do maratonista sem as duas pernas?”

 

OBS: Teve mais gente que ouviu, manifestou real interesse, real preocupação, esclareceu dúvidas… Até opinou, mas só dentro do que o conhecimento permitiu. E, se tiveram alguma opinião dessas aí de cima, guardaram para si. Vocês são os melhores! Mas essa é só a minha opinião…

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