Adicionar por Snapcode


OLHA PRA MIM QUANDO EU TÔ FALANDO CONTIGO

sb

“Eu moro sozinha. Adoro promover encontros da minha família na minha casa. Preparo tudo com carinho, me dedico a isso. Então, estão todos à mesa e cada um com seu celular: um preocupado, talvez resolvendo assunto do trabalho; outro rindo, mas não para mim; outro conversando com pessoas que não estão ali; marcando coisas para fora dali… Estou completamente fora de qualquer uma dessas conversas que eles estão tendo ao redor da minha mesa. Na maior parte das vezes, com a mesa cheia de filhos e netos, me sinto mais só do que com cada um na sua casa. Porque, dessa forma, pelo menos eu teria mais chances de estar em uma dessas conversas.”

Ouvi esse depoimento de uma senhora em um bate-papo na Secretaria da Cultura sobre a questão da autoridade na rede social. E me marcou mais do que qualquer outro tópico do encontro.  Uma mulher de mais de 70 anos isolada em sua própria casa cheia de família é um retrato triste do comportamento que o WhatsApp tem despertado.

Eu não acho que “Whats substituirá o telefone”, que é o mal do século, coisa do demônio ou o problema dessa juventude. Apenas acho que não sou obrigado. Quero usá-lo com um pouco mais do egoísmo com que minha mãe usa o celular dela (que não tem Whats): prioritariamente, quando ela precisa falar com alguém, não sempre disponível para receber. “É urgente, me liga no residencial”, ela pensa.

Porque aquela notificação de nova mensagem – frequentemente (quase sempre?) inútil – parece sempre trazer algo mais importante do que qualquer conversa real em que você esteja. Basta vibrar o celular no bolso e a gente interrompe o que estiver fazendo para conferir, ainda que pela simples necessidade de zerar a marcação de novas mensagens. Parece uma grosseria ler e não responder. E interromper a conversa com quem está na tua frente não é?

Bem avaliadas, poucas das mensagens merecem atenção tão imediata. A maioria não merece atenção alguma. E nada (nada mesmo) é tão urgente: se fosse, chegaria de outro jeito.

Afinal, ninguém te liga para desejar “bom dia iluminado”, ninguém bate à tua porta pra contar uma piadinha; ninguém, em um encontro, cita belas lições de vida para inspirar a tua. Por que todo esse conteúdo teria prioridade no teu dia-a-dia?

Quando celular não fazia nada a não ser ligar e mandar torpedos, eu fiquei um ano sem. Deveria ter sido, mas não foi, libertador. E fui cobrado intensamente como quem saia de casa sem as calças. Me senti um estranho como um professor da faculdade que não tinha TV. E acabei comprando, depois de vários “será que vou ter que te dar um?”, porque “isso não é bom, profissionalmente, alguém que não possa ser contatado…” 

Agora que celular nos mantém dispostos a qualquer bobagem a qualquer hora do dia, eu fiquei um domingo inteiro ignorando as notificações. Porque o trabalho da semana estava em dia, porque se fosse caso de urgência haveriam outras formas de me encontrar, porque eu queria testar o “direito à desconexão” sobre o qual ouvi no mesmo encontro.

Na segunda-feira, minha sócia estava realmente preocupada com as mais de 24 horas antes do meu “visto por último’. “O que te aconteceu? Achei que tu tinha morrido”. Achou errado. Eu estava era vivendo.

Level Cult Facebook