Adicionar por Snapcode


O que eu não entendo sobre o piXo

pixoprapensar12

Antes de qualquer coisa, você, Grande Entendedor das Coisa Tudo, leia esse texto como um um “me explica isso aí”. E me explique, se achar que vale.  

Pixo não é arte. É deboche, é política, é poética, é manifesto. É isso, mas não é arte. Não pra mim, até então. Não consigo entender como acordar numa manhã com um nome ilegível pintado no seu muro, na sua sacada ou na barriga da Gigia Bandera pode ser um encontro com a arte, por mais transgressora que queira ser.

Não discuto aqui nem se é crime, vandalismo, lucro ou prejuízo, feio ou bonito. Já li e reli os entendedores do assunto e sempre misturam esses conceitos. E acho que é também por isso que não conseguem me explicar por que é arte.

Uma professora, mestre, da UFMG disse que é arte, sim, porque foi considerada por bienais, porque há um processo criativo/poético por trás da pichação… E que a gente não aceita porque “não é bonito”, porque é difícil, porque queremos ver desaparecer o que é ilegal. Só que se fosse legal, se o prefeito decretasse a pichação como um bem ao espaço urbano e eu chamasse os pichadores para enfeitar meus muros, a arte do pixo deixaria de existir. Quer ver?

Um renomado pichador disse que o grafite (que, aliás, parece estar meio em baixa, porque é coloridinho, porque a prefeitura contrata para o muro da escola, porque é “fácil de entender) errou quando passou a ganhar para pintar a rua. Então, perdeu a ilegalidade e a transgressão, que legitimam o pixo como arte. Viu?

Perguntaram à professora sobre a pichação na igrejinha da Pampulha. Ela, e uma porção de gente em um vídeo-manifesto sobre a prisão de pichadores, deram as respostas evasivas. Disseram, em resumo, que há pouco tempo uma obra da prefeitura também havia desfigurado o patrimônio da capela e ninguém tinha sido preso por isso. Dá pra entender? Se eu estou convencido de que é arte, respondo: “é arte, sim. Arte transgressora picha patrimônio, arte, história. Se não pichar o que bem entender, deixa de ser arte”.

E eu ouço: “e o mictório do Duchamp é arte, né?”; “Pixo não pode. Mas aquele Cristo pescoçudo do Segalla pode?”, “as pessoas só consideram arte se tiver na galeria – daí pode ser até cocô enlatado”. Sim, sim e sim: o lugar é importante. E, quando digo “lugar”, me refiro mais ao contexto do que ao espaço físico. O contexto não chancela nada como arte, não qualifica obra nenhuma, mas permite que algo possa ser apreciado como tal: e daí julgado. Uma bailarina dançando, sem som, de calcinha e top no palco é dança contemporânea. Na calçada, do nada, não; Marina Abramović, imóvel, encarando pessoas na galeria é performance. E seria isso até na praça, mas só se fosse enunciado o contexto; Uma grafia própria, uma poesia, um caralinho é arte, em qualquer lugar que se permita e se anuncie como tal. Na parede alheia e no patrimônio público, é pichação. Só.

Não defendo que pichador tenha que ser preso, não torço para cair do nono andar, não espero que seja pintado pela polícia. Acho só que a competição para ver quem picha maior, mais alto, mais espaços é mais esporte do que arte. E mesmo quando carrega uma mensagem (já vi coisas bem boas no muro), não pode ser arte só porque se manifesta e transgride. Se fosse assim, também seriam arte a pedra que estilhaça o vidro do banco; as toras que interrompem a rodovia durante a greve; o pessoal todo verde-amarelo que esteve circulando por aí, aquele Gigante que voltou a dormir.

Sem contexto e enunciado, nada é arte. Ou tudo seria.

 

Ficou até aqui? Então ó, uma estorinha:

Um dia, quando o povo finalmente aceitou o piXo como arte, Romero Britto já tinha enjoado de ser rico e queria ser reconhecido como artista. Recusou encomendas e hospedagem no Castelo de Caras, rescindiu 1700 contratos de produtos franqueados, parou de dar presentinhos. Nas madrugadas silenciosas, passou a desenhar aquilo nos muros, nos viadutos, nas praças. Então, a galera do pixo viu que aquilo não era arte (Não pode ser!). E Britto (agora assinava BriXo), que conheceu a glória e a treva, amargou o fracasso de crítica nos dois extremos.

Level Cult Facebook