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Não é O Fim

grito
Omita-se. Diga “esse assunto será tratado pela assessoria”, ignore a imprensa, desautorize sua equipe. Pronto. Você presume que o silêncio abafará a notícia,  vencerá a mídia pelo cansaço e  fará o assunto cair no esquecimento. Mas seu silêncio está fazendo muito barulho: maior que o necessário, distorcido e polêmico. Aliás, o silêncio é, para mim, o único absurdo deste caso: o bailarino/surto na praça João Pessoa.
Você, coordenador da Unidade de Dança, que calou, é responsável pelo velho coro de “Tinha que ser Caxias, né? Caxias não sabe apreciar a arte.”
Você, autoridade da Guarda, que se esquivou dos repórteres, é responsável pelo “Quanta truculência! Que ato violento. Tsc, tsc, tsc”
Você, do Samu, que estava com os outros dois, elaborando a versão oficial, é responsável por quanto a sua equipe (ágil e eficaz) está sendo ridicularizada.
Poderia ter sido tão simples.
Um bailarino executa sua performance, O Fim, em praça pública. Discurso desconexo, gritos, arame farpado pelo corpo. Sunga.
Se o bailarino segue com a performance, alheio ao que ocorre ao redor, eu – que não vi, pra dizer se foi bom (tenho a impressão de que não foi) – acho que é mérito do bailarino.
Se alguém que passa e vê o homem sangrar e se comportar como num surto, chama o Samu, eu – que não vi, pra dizer se parecia mesmo um surto (tenho a impressão de que sim) – acho que é bom senso do passante.
Se um guarda, ou vários, imobilizam o homem depois de uma frustrada tentativa de diálogo, eu – que não vi, pra ter certeza se foi violento (tenho a impressão de que foi pacífico), acho que é bom trabalho da Guarda.
Se os paramédicos do Samu atendem com rapidez, encontram o homem supostamente surtando, tentando se desvencilhar de cinco guardas e dizendo nada que os faça entender o engano, sedam o homem, eu – que não vi, para dizer se era pra tanto (tenho a impressão de que fez parecer que era) – acho que é procedimento bem sucedido.
Se diante de tantos “sucessos”, a prefeitura se isola e arma uma grande operação de investigação para elaborar uma versão oficial do fato, eu – que não os ouvi, pra dizer se têm razão (tenho a impressão de que não) – acho que é uma grande burrice. E burrice tem, entre tantos outros dons, esse poder: transformar notícia boa em tragédia.
Antes de ir, deixo aqui um esboço de cena que, para mim, esta, sim, seria polêmica. E, da mesma forma, mereceria o respeito de quem precisa responder por isso.
Um homem envolto em arame farpado, vestindo sunga, grita em uma praça pública. As pessoas, conhecedoras de arte que são, param para assistir (algumas aplaudem). A Guarda Municipal se concentra na proteção do patrimônio público e no bom funcionamento do show. O Samu aparece só para o caso de alguém da plateia passar mal no meio da multidão, que agora se acumula ao redor do homem sangrando. Mas não era uma performance. Era um surto. E o “show” acaba mal.
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