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Meu drama: versão sem cortes

luz

Eu ensanguentei a toalha branca. Corte feio no indicador esquerdo. Uma coisa branca lá dentro que, se não era gordura, era osso. E eu não quis ter certeza. (‘Será que tem uma veia importante aí? Medo de perguntar ao Google. E essa dormência na ponta do dedo. Vou perder o tato? Meu Deus! Meu dedo!).

Meu corte, meu azar.

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Plantão. Do meu lado, um guri, com o pai e a mãe.

– Tio, por que tá escrito ‘sutura’ nessa porta que a gente vai entrar? Minha mãe disse que vai ser ‘costura’…

– Sei lá. Acho que se escrevessem costura, as pessoas iam ter medo, né? Então, acho que colocam sutura, pra gente não entender bem.

– Ah é? Mas eu nem tenho medo. Quando tinha seis anos, chorava até pra fazer vacina. Agora eu tenho 7. Sou corajoso.

(Eu, aos 32, cagado.)

O guri com uma faixa no pulso e, segundo a mãe, com a parte interna do braço esfarrapada pelas dentadas de um cão sem dono que entrou na escola (“Tem dono sim, mãe. É da vó da minha colega…”). A coragem do guri deixando meu corte cada vez menor. O tempo passando e eu nem conseguindo odiar a demora, porque ela adiava um desespero (ponto, linha, agulha, COSTURA). Eu sozinho (Vai doer pra caralho, e minha mulher em outra sala de espera…). O guri louco pra me mostrar o machucado.

Meu corte, bem escondido na toalha, um “dodói”.

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– Tio, por que as pessoas demoram tanto ali?

– Acho que depende do tipo de costura…

 

– Mãe, vai doer?

(“Ele fala muito quando tá nervoso”)

– Já falei, filho, só uma picadinha. Igual vacina.

 

– Tio?

– Ah, as mães sempre com essa história de picadinha, né?

Meu corte só diminui.

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– Marcelo, tu está com a antitetânica em dia?

– Não. Mas eu lavei bem, rápido, o corte é limp…

– Vai ter que fazer a antitetânica.

(Fim da triagem. Fim do mimimi)

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Passa uma mulher algemada, a mãe abraça o guri. Eu fico entre o desviar do olhar, para não acompanhar o corredor, e o não desviar, para mostrar empatia. A mulher me olha com o mesmo ódio com que olhou para todos. O guri não repara no olhar nem nas algemas. Fica particularmente interessado num pingo de sangue que ela deixou no piso branco. O corredor silencia e eu penso em todos os tipos de dores que a mulher algemada sente.

Meu corte, o indicador apontando pra mim.

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Do outro lado, uma moça acompanha o namorado: mindinho do pé ‘quase arracado’, pontos no braço, antebraço sangrando, aguardando o raioX para confirmar uma costela quebrada. A namorada, conversando com outro paciente, preocupada com coisas mais importantes “Mas o senhor precisava ver a moto. Entortou tudo. Faz nem um mês que ele comprou. Uma judiaria.”

Meu corte avisa que o galho que atrapalhava o portão ainda está para ser cortado.

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O senhor que ouviu a história sobre o rapaz que perdeu a moto (e talvez o dedo) por que o carro não deu sinal para dobrar, responde à enfermeira da triagem. Para a distração do guri, tira da jaqueta um braço com setecentas costuras. Mais para crochê. Conta uma longa história sobre as cirurgias só para esclarecer que o corte de hoje é novo, mas não tem nada a ver com o resto das cicatrizes.

Meu corte, azar que nada. Sorte.

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– Marcelo ‘ArÂmis’, pode passar.

– Henrique (o guri), eu vou ali, depois é tu. Se tu ouvir uns gritos, pode mandar a tua mãe entrar pra segurar a minha mão? É que eu não trouxe a minha…

(Ele ri e levanta o polegar. Eu não entendo se foi um “OK” ou um “joinha”)

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Respondo tudo de novo, para a médica: facão, galho da árvore emperrando o portão, meio-dia e meia, acho que nunca fiz antitetânica. Ela olha o corte com o desdém de quem suturou cortes de respeito.

Minha última chance:

– Vim pra me certificar se precisa ou não sutura. Então, se não precisar…

– Ó: se tu não fizer os pontos, vai cicatrizar. Mas, perto assim da junta, vai ficar uma cicatriz bem feia. Foi bom ter vindo. E já que está aqui, vamos fazer. Por estética, mesmo…

Meu corte, estético.

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Maca. Luzes. Greys Anatomy. Gaze. Álcool (inferno). Cinco minutos lerdos de ar-condicionado potencializando o efeito do álcool. Pouca anestesia ‘para não amortecer a mão inteira’. Picada da anestesia. Picadas dos quatro pontos. Olhos grudados no teto. Mão direita agarrada à maca. Esquerda petrificada na mão da médica. “Marcelo, tu precisa relaxar a mão para eu segurar o dedo…”

Um amigo dentista que trabalha ali e já tinha conversado comigo durante a espera, acompanha o procedimento. “Vim para te dar uma força.”

 

*A foto que ilustra o post eu fiz, na maca, para aliviar a espera mais dramática. E mandei para a minha mulher, na sala de espera, com um não menos dramático “Adeus”.

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