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“Manda nudes” e a Geração das Relações de Copinho Descartável

Sem Título-1

Essa semana li um texto chamado “A geração que trata tudo como descartável”, em que a Ruth Manus, do Estadão, comenta como as relações de hoje são tão frágeis (e descartáveis) como um copinho plástico daqueles que usamos para tomar cafezinho na saída do restaurante.
Na primeira vez que li, o texto me incomodou. Incomodou tanto a ponto de me fazer pensar “Não, ela está exagerando. É só mais um daqueles textos batidos que criticam a geração Y, que quer ter tudo mas que não tem nada”, todo aquele blablabla que vocês já conhecem. Mas lendo de novo alguns dias depois, e somado a alguns acontecimentos recentes, o texto começou a bater — igual àquela Skol Beats que você, no início, acha fraquinha, mas que, pouco tempo depois, percebe que está fazendo a sala girar.
Bom, minha sala girou. Girou quando voltei a pensar sério nessa superficialidade dos relacionamentos atuais. Os relacionamentos mantidos por mensagem de Whatsapp, de Messenger, de Snaps, de Happn. Os relacionamentos de “manda nudes”, ao invés do “nudes ao vivo”. O relacionamento que não precisa de compromisso algum, que não exige nada, que não cobra nada. “A gente se vê quando der”, “quando sobrar tempo”, “mas por enquanto… quem sabe tu vai mandando um nude aí para eu dormir bem?”.
Como bem definiu uma amiga minha: “é toda uma nova forma de se relacionar, em que temos a companhia virtualmente, mas não temos o stress do crescimento das relações”. E como é mais fácil, né? Ficar embaixo da coberta mandando mensagem, ao invés de assumir o esforço que uma relação olho no olho exige.
Gosto muito de discutir essa superficialidade com minhas amigas — também costumo compartilhar com a minha mãe, mas ela (felizmente!), acha difícil de compreender. E não compreende porque ela veio de uma geração, como ela mesmo diz, que “fazia questão de se encontrar sempre”, que “ia na reunião dançante” só porque queria ver a pessoa ao vivo.
As minhas amigas, da minha geração, convivem com essa descartabilidade, porque “compreender” talvez não seja a palavra exata para esse caso. E não é por falta de exemplos: o cara que insistia em pedir “manda nudes” mas tinha preguiça para promover encontros reais; o cara sentado na minha frente no ônibus que ia a Porto Alegre, que passou a viagem inteira mandando Whats para uma lista tão grande de meninas que eu não consegui nem contar (desculpa, eu sei que não deveria olhar o celular dos outros, mas ele estava na minha frente, gente); o outro, que cancelou o casamento na semana anterior, com a mesma facilidade com que eu cancelaria a manicure; ou aquele que fez o mesmo com o noivado de quatro anos: fim, partiu para outra, simples assim, manda vir a próxima.
É improvável que um dia a gente considere essas situações como algo normal. Assim como é improvável que achemos ok, quando o cara, que esqueceu do horário marcado, manda mensagem as 11 e meia da noite dizendo “tô indo te buscar”. Ou quando o ex-namorado volta a entrar em contato, como se tudo estivesse bem, sem pedido de desculpas, já que, segundo ele, “passado é passado, bola para frente”. E isso não é só com as mulheres, importante ressaltar. Um amigo sentiu-se exatamente assim quando reservou a casa na praia para passar uma semana com o namorado e ouviu: “Ah, mas não reserva ainda! Vai que a gente brigue até lá!”. Lógico que essa viagem, depois disso, não saiu. (Vale ressaltar também que o problema não existe apenas nos relacionamentos amorosos. Vemos muito nas amizades também. Como é fácil excluir, bloquear, esquecer, ao invés de lidar pessoalmente com um desentendimento.)
Talvez nunca aconteça de a gente aceitar o destino do copinho plástico de café. E acho que esse destino não tem que ser aceito mesmo. Porque a vida pode — e precisa — ser muito mais do que isso.

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