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Criança viada, sim!

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amostra

 

“É proibido proibir. Vocês não estão entendendo nada” – Caetano Veloso, Setembro de 1968

A arte é uma ferramenta de medição e instrução moral e intelectual de uma determinada cultura.  Não é produzida apenas para agradar aos olhos e decorar espaços, mas sim para provocar debates, idéias, discussões e questionar as normas sociais. Os espaços artísticos, museus e galerias são locais que devem manter uma integridade baseada na liberdade de expressão e na segurança dessa liberdade.

Recentemente, a exposição QUEERMUSEU, com curadoria de Gaudêncio Fidelis, que reúne mais de 200 obras de arte no Santander Cultural, incluindo Adriana Varejão, Volpi e Lygia, sofreu um forte ataque de censura por parte de extremistas religiosos e pelo movimento político MBL. O ataque se deu pelas redes sociais na página do Santander e na própria exposição com vigílias de orações, ataques verbais ao curador, funcionários e visitantes, bem como o impedimento da entrada de novos visitantes. Esta censura foi movida pela ideia de que a exposição incentivava a pedofilia, a zoofilia ( oi?), a profanação religiosa( oi????) e a homossexualidade ( ????).

Como resultado, o Santander Cultural encerrou a exposição um mês antes do previsto com uma nota bastante duvidosa, que põe em xeque a credibilidade da liberdade do espaço artístico e da instituição em si. Grande parte dos ataques foi proferida por pessoas, incluindo a coordenadora do MBL no RS, que não visitaram a exposição, apenas basearam suas opiniões em recortes de imagens de algumas obras.  Essa informação tem relação direta com os dados de 2015 do INNOVARE PESQUISA, onde ficou explícito que 71% da população brasileira nunca esteve em exposições de pintura ou escultura. Não é de estranhar que a visitação da exposição não foi tão grande em comparação com a sua repercussão.

Não é culpa sua não entender uma obra de arte. Mas é um erro terrível não buscar o seu entendimento, para o bem ou para o mal. A obra de Fernando Barril, que mostra um Jesus com múltiplos braços, foi tida como uma profanação religiosa. Porém, é ignorada toda a sua rica leitura. O quadro representa uma mistura de Cristo com Shiva em uma clara semelhança com o Homem Vitruviano, de Leonardo Da Vinci, que denuncia a distorção do consumo. Onde esta a profanação?

A obra “Cenas do interior II” de Adriana Varejão foi acusada de incentivar a zoofilia. Os críticos “facebookianos” não levaram em consideração centenas de obras de arte, desde a pré-história , que mostram cenas de sexo com animais, com múltiplas interpretações, presentes em diversos museus pela Europa e Estados Unidos. Vide as obras que retratam a história de Leda e o Cisne. Isso tudo sem falar na história contada pelo quadro. São cenas do interior, simbólicas, baseadas em contos e relatos.

Já as obras de Bia Leite, inspiradas nas publicações do site CRIANÇA VIADA, foram acusadas, diretamente de incentivar a pedofilia. Segundo a artista, em declaração a Zero Hora “Nós LGBTs, já fomos crianças. Esse assunto incomoda porque nunca viramos LGBTs, nós sempre fomos.”  No site CRIANÇA VIADA, de onde a artista buscou sua inspiração,  pessoas enviavam fotografias antigas enquanto crianças, quando tinham traços/trejeitos não heteronormativos, com a intenção de celebrar esses traços, que durante toda a infância foram motivos de xingamentos e violência.

Na última segunda feira, dia 11 de Setembro, os promotores Denise Villela e Júlio Almeida estiveram na exposição e constataram que NÃO HÁ PEDOFILIA NAS OBRAS.  Porém, a opinião jurídica pouco tem validade perto das opiniões dos grandes críticos de arte do Facebook (boa parte deles pertencentes aos 71% da população que não frequenta exposições ).

Vale lembrar que uma obra de arte é apenas uma manifestação de uma ideia que serve muitas vezes de espelho para o espectador. Então se você enxerga pedofilia em uma tela (tinta e traços) de duas crianças sorridentes, que nem se tocam e estão vestidas, sugiro que você procure um psicólogo.

O lado bom dessa história toda é que os artistas e a comunidade LGBT estão unidos e em ação! Preparem-se para futuras obras de arte bem bafônicas e muita ação pelas ruas. Mas  mantenham-se firmes, pois a luta pela liberdade e contra a censura é longa. O MBL iniciou uma campanha contra o Santander exigindo que façam uma doação de 800 mil reais a instituições que cuidem de crianças que sofreram abuso, em retratação pelo uso do dinheiro público  (???) para a exposição. Para o MBL, a exposição incentiva também o abuso de menores. Inclusive, nosso velho amigo Marcos Feliciano esta apoiando o movimento.

Na próxima quinta feira , dia 14 de Setembro, abre uma nova exposição em Porto Alegre. A ARTE + ARTE promovida pela Casa Chico que vai expor uma coletânea de diversos artistas com obras recentes na galeria do DMAE. A temática é arte e política, e conta com alguns trabalhos que podem parecer fortes de mais para a grande voz moralista das redes sociais, religiosos extremistas e o MBL.

Será que o bafafá todo em torno da QUEERMUSEU vai levar mais pessoas às exposições? Será que veremos uma nova censura? Ou será que a preocupação em torno da QUEERMUSEU era apenas pela sua temática QUEER?

Lembrando que a exposição foi taxada de DEGENERADA, mesmo termo usado pelos nazistas para se referir a obras de PICASSO, KANDINSKY e outros.

Vamos aguardar o desenrolar da história, produzir e consumir arte e ser cada dia mais uma CRIANÇA VIADA.

 

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Cena do Interior II, de Adriana Varejão.

 

 

 

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Cruzando Jesus Cristo com Deusa Shiva, de Fernando Baril.

 

 

 

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Gaudêncio Fidelis, curador.

 

 

 

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Sandro Ká, com uma de suas obras.

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