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Como nossos pais

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Eu não gostava muito de comer quando era criança. Para mim, a hora das refeições não era a felicidade que é hoje. Era um momento que demorava para passar, porque eu só ficava jogando aquela comidinha para lá e para cá dentro do prato, irritando meus pais cada vez mais. E eu acho que eles tentaram tantas estratégias, que decidiram ir buscar do outro lado do mundo um argumento para tentar me convencer a comer: “Tem muita criança na África que passa fome porque não tem nada para comer. Tu sabe o quanto eles gostariam de ter isso no prato?!”

Eu era só uma criança (um tanto quanto chata e crítica), mas enfim, eu era uma criança. E lembro de, mesmo assim, já pensar naquela época que aquele comentário era muito desnecessário. Porque falar da África não me ajudava a ter fome (se nem o Biotônico ajudava, imagina uma história dessas?) Pelo contrário, me fazia sentir culpa e ter ainda menos vontade de comer.

Anotei essa história da África mentalmente na minha lista de “Coisas que eu não diria para os meus filhos”.

E então 20 anos se passaram.

Durante um almoço de família, meu primo de 10 anos (mesma idade que eu tinha quando era a pentelha da comida) decidiu que seria interessante jogar uma peça da Baby Alive da minha outra prima dentro de uma garrafa de água mineral. “Eu queria ver o que acontecia”, disse ele, enquanto a minha prima se desesperava. Para tirar a pecinha de lá, ele teve que esvaziar a garrafa inteira na pia. Antes que eu pudesse pensar ou controlar as palavras, eu estava dizendo: “Tu sabe quantas crianças na África gostariam de ter essa água para beber?!”

 

 

Depois disso, eu cheguei a conclusão de que provavelmente, se eu tiver meus próprios filhos, eu vou fazer outras coisas que meus pais faziam e eu pensava que nunca ia fazer, tipo apagar todas as luzes da casa (mesmo nos aposentos que estão sendo utilizados pelas pessoas) e gritar “Ninguém aqui é sócio da RGE!”, ou então proibi-los de ver filmes de terror,  “Porque ver filmes de terror não atrai bons fluídos”.

Porque assim é a vida. Não importa o quanto você pense o contrário, você não tem como fugir do lugar e dos exemplos que você veio. E tudo bem. No caso dos meus pais, eu vejo hoje que eles realmente estavam certos, ou, pelo menos, tentando acertar da melhor maneira possível.

Adiantou na época? Não adiantou.

Eu não comida nada.

Eu não tinha a menor consciência do gasto de luz.

E eu via filme de terror escondido na casa das minhas amigas cujas mães não liam sobre feng shui.

Mas eu cresci e comecei a ter uma noção um pouco melhor disso e de muitas outras coisas. Graças a eles.

 

 

Esse texto é dedicado aos meus pais. Que me ensinaram, entre outras coisas, que a conta de luz é cara.

 

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