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Casados desaprendem a dormir no meio da cama

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Eu não sabia que casados (pelo menos eu) eram tão dependentes um do outro. Eu costumava duvidar do choro de saudade na primeira semana do BBB; eu achava meio imprópria a pergunta “e ele(a), vai ficar sozinho(a)?” quando amigos meus fizeram intercâmbios in-tei-ros longe dos seus parceiros; eu nunca achei que relacionamentos à distância fossem uma utopia.

 

Não é a primeira vez que passo alguns dias longe da minha mulher, mas os últimos foram a minha estreia no papel de quem fica enquanto o outro está fora. O trabalho me segurou aqui e ela foi para a praia para ficar uma semana. Antes teve a insistência do “vem! Tu trabalha depois”, teve as minha tentativa de adiantar tudo, teve a aceitação de que, “dessa vez, não deu”. Depois teve um tchau sem emoção de BBB e uma sensação bem infantil de ter a casa só pra mim (uhull): “vou pedir xis todos os dias, vou dormir a hora que eu quiser, nunca arrumarei a cama”.

 

Só que eu não tenho 15, não estou de férias e ela não é minha mãe. Então eu trabalhei mais do que o normal, para ocupar o tempo que sobrou. Eu tive quase zero lazer, porque me senti um traidor vendo sozinho episódios da série que a gente assiste junto (eu faço o mesmo quando ela está, mas não parece traição porque ela dorme do meu lado). Eu comi xis em uma refeição (normal, bem normal), pulei várias outras, fiz uma gororoba que prefiro não descrever para o jantar de sábado. E sou eu quem cozinha nessa casa: mas faltou quem dissesse o que queria comer, faltou quem comprasse o que comer, faltou fome.

 

Para não dizer que fui o guri comportado que eu costumava ser na adolescência, que deixa tudo em ordem sob a presença invisível dos pais que viajaram, devo ter feito mais bagunça do que o normal, deixei a roupa de passar acumular sem dor (porque ela não tá aqui pra se sentir culpada pelo montão de roupa que eu passei), não limpei pingos ao redor do vaso de propósito (ela dirá: “antes não era de propósito?). E não toquei na louça: porque é o item sagrado (pra mim) da lista de tarefas dela.

 

Eu não chorei como um BBB. A minha saudade é mais uma sensação de estar incompleto, de não funcionar bem sem essa parte. Para cada coisa não feita porque ela não está, eu viajei no “o queseria se ela estivesse?”. A resposta é que a gente reagiria de jeitos esperados, teria dias iguais, reclamaria das mesmas coisas de sempre. E disso que é feita a minha dependência: dessas “coisas de sempre” que a gente não valoriza (até reclama) mas devem ser o que sustenta o nosso “pra sempre”.

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