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A boa arte

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Nos últimos meses, temos presenciado um mar de censura em relação às artes como há muito tempo não víamos dentro da nossa democracia. A censura tem muitas faces distintas e usa as desculpas cabíveis para “moldar” o pensamento da sociedade e nos dizer o que é bom ou não. Atualmente a “moral e os bons costumes” são a nova face da censura no Brasil. Disfarçada de bom gosto e de preocupação com a família e as crianças, a censura voltou com força total, mas com o mesmo discurso de sempre. Pode-se trocar a máscara, mas a voz é sempre a mesma.

Aproximadamente 71% da população brasileira nunca esteve em exposições de pintura ou escultura segundo os dados de 2015 do INNOVARE PESQUISA, no entanto, esta mesma parcela da população, inflamada por discursos radicais de religiosos e políticos, tem gritado em alto e bom tom que a arte deve ser bela, preservar as crianças e ser boa, diferente desse lixo pervertido que os artistas, sustentados por leis de incentivo, têm nos mostrado. Converse com qualquer pessoa contrária à arte contemporânea e pergunte o que é a boa arte. Ela vai dizer que a arte deve ser bela, que os artistas de hoje não se esforçam nem estudam mais as técnicas clássicas, e que antigamente, sim, existia arte.

Diversas obras clássicas sofreram ataques verbais e físicos muito similares ao que a arte contemporânea tem sofrido nesses últimos meses aqui no Brasil. Vamos conferir algumas delas?

 

O juízo final de Michelangelo, 1565:

Muitos usam o nome de Michelangelo para exemplificar o que é a boa arte, e aqui vale ressaltar que a “boa arte” deve ser produzida por pessoas responsáveis e comprometidas, pessoas de bem. Mas, essas pessoas  mal sabem  que um dos artistas mais queridos da nossa história era gay, teve um caso com garoto de 13 anos de idade, não gostava de tomar banho e era extremamente rabugento. Uma pessoa um tanto quanto desagradável de se ter por perto e com ideias muito a frente de seu tempo. Suas pinturas mais famosas estão na capela Sistina e uma delas O JUIZO FINAL causou um grande alvoroço no Vaticano. O afresco foi considerado profano e imoral pelos defensores da fé católica, incluindo o Papa Daniele de Volterra. Na época os críticos não conseguiam enxergar a mensagem religiosa apenas porque todas as figuras estavam nuas. O poeta Pietro Aretino ficou tão impressionado que disse para Michelangelo: “Nem mesmo num bordel existem cenas como a sua”. Mais tarde, um dos pupilos de Michelangelo teve de pintar uns tecidos nos personagens para cobrir suas vergonhas. Ou seja, o que vemos hoje não é a ideia original do gênio das artes.

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A Olympia de Manet, 1865:

Na época que essa pintura foi feita, a nudez já era aceita dentro das artes, mas não da forma como Olympia foi apresentada. Manet retratou uma mulher com características normais, não idealizadas e que olhava fixamente para o espectador. A Mulher representada era claramente uma prostituta, o que não era novidade em pinturas, mas a ousadia da sensualidade e a força da figura foi uma afronta. Sem falar das pinceladas marcadas, uma pintura considerada grotesca para a época (hoje seria chamada de lixo). A obra sofreu diversos ataques no salão de Paris de 1865. Cuspiram na tela, xingaram a moça da pintura e até mesmo um guarda chuvas foi atirado contra ela. Policiais marcaram presença na abertura da exposição para evitar um desastre maior, porém ela teve de ser escondida. Foi realocada e exposta em um lugar muito alto, longe dos guarda chuvas, numa parte não muito visitada do museu em que foi exposta. Talvez você já tenha visto alguma cena semelhante nos últimos meses em frente ao Santander Cultural em Porto Alegre ou no MAM em São Paulo.

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Toulouse  Lautrec, 1885:

Certamente, o meu pintor preferido. Seguiu o estilo impressionista de pintar, o que por si só já era motivo de escárnio e escândalo. Em relação às obras impressionistas, como  as de Monet, Degas e outros, as pessoas não tinham papas na língua. Adjetivos como “lixo”, “imoral”, “repugnante” e “infantil” eram bem comuns às obras impressionistas. Mais tarde, o movimento fauvista sofreu ataques ainda mais pesados. Em relação a Toulouse Lautrec, o ataque foi muito mais tenso. Sua temática principal eram as prostitutas de Paris, especialmente as de cabarés famosos como o Moulin Rouge. Decotes ousados, danças sensuais e figuras masculinas que seguravam suas bengalas de forma fálica dentro do bordel causaram um alvoroço tremendo na cidade e uma vergonha gigantesca para sua família. Apesar dele ter tido reconhecimento após a sua morte, seu pai queimou diversas de suas pinturas, por considerá-las pornográficas de mais. Quando Toulouse morreu, um jornalista publicou : “Lá se vai o último dos malditos”.

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Anita Malfatti, 1917:

A artista brasileira expôs suas telas pela primeira vez em 1917 trazendo em suas pinceladas os conceitos vanguardistas europeus da época em uma exposição chamada “Exposição Malfatti”. Ela sofreu fortes críticas da sociedade paulista, e a mais forte e intensa foi a do escritor Monteiro Lobato que no artigo “Paranóia ou Mistificação”, publicado no jornal de São Paulo em 20 de dezembro de 1917, destruiu os sonhos da artista. No artigo ele diz o seguinte: “Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que vêem normalmente as coisas(..) A outra espécie é formada pelos que vêem anormalmente a natureza e interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. (…) Embora eles se dêem como novos, precursores de uma arte a vir, nada é mais velho do que a arte anormal ou teratológica: nasceu com a paranóia e com a mistificação.(…) Essas considerações são provocadas pela exposição da senhora  Malfatti onde se notam acentuadíssimas tendências para uma atitude estética forçada no sentido das extravagâncias de Picasso e companhia”. Como resultado o escândalo foi inevitável, quadros foram devolvidos, houve até mesmo uma tentativa de agressão à pintora e a mostra foi fechada antes do tempo. Anita não pintou mais com traços modernistas, voltou a pintar de forma clássica e suas pinturas não atingiram o grau de significância para perdurar na memória. Alguma semelhança com os últimos acontecimentos no Brasil?

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Estes são apenas alguns poucos exemplos dos ataques que a arte tem sofrido ao longo da história, mas a lista é muito mais longa do que se imagina. Praticamente todas as obras clássicas famosas foram criticadas e censuradas em seu tempo. Este fato trás, no mínimo, a reflexão para aqueles que criticam a arte contemporânea atualmente: quantas obras iremos cobrir com panos? Quantas obras serão queimadas e quantos sonhos iremos destruir? Os novos gênios da arte estão por aí, sofrendo as mesmas duras críticas que seus antepassados, mas seus trabalhos irão perdurar. Pois uma coisa é certa: a arte sempre transpõe o tempo, não importa quantos guarda-chuvas joguemos nela.

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