Adicionar por Snapcode


Mãe

1200

– Mãe!

– Oi filha. Como foi a escola?

– Boa. Começou uma menina nova na minha turma.

– Ah é? Que legal! E vocês já ficaram amigas?

– Sim. Fizemos um trabalho em dupla e emprestei meu casaco pra ela no recreio.

– Ai que bom, filha. Convide ela pra estudar com você aqui em casa.

– Amanhã na escola eu convido. Acho que ela não tem os livros ainda, a família dela veio pro Brasil faz pouco.

– Ah… E de onde eles são?

– Dinamarca.

– Ah…

– O que foi mãe?

– Nada. Quer dizer, eles são da Dinamarca que nem esses imigrantes dinamarqueses que vieram aqui pra cidade em bando?

– Sim. O pai dela trabalhava na rua vendendo meias e panos de prato. Aí conseguiu um emprego numa fábrica, ele limpa as máquinas. E a mãe dela é faxineira.

– Ah… E na escola não estranharam? Digo, ela deve ser branca né? E não fala português.

– Sim. Branca e loira.

– Ah, além de branca é loira.

– E tem olho azul.

– Ah…

– Teve gente que ficou rindo dela, mas eu disse que era pra ela não ligar. Não sei se ela me entendeu porque não fala bem a nossa língua ainda, mas acho que sim.

– Sei. É, acho que vai ser difícil vocês serem amigas sem conversar né, sem ter tantas coisas em comum.

– Mas a gente conversou. Quer dizer, nos entendemos. Então, posso convidar ela pra vir aqui amanhã?

– Amanhã não dá, filha. Talvez outro dia.

– Na sexta então. Ela podia vir almoçar conosco.

– Não, filha, nem pensar. Fica corrido fazer almoço pra mais uma pessoa.

– Então na sexta à tarde.

– Sexta à tarde eu não vou estar em casa.

– Mas e daí? Nós só vamos estudar.

– Ah é que eu prefiro estar em casa quando suas amigas vêm aqui.

– Mãe, você NUNCA está em casa quando minhas amigas vêm aqui.

– Olha, eu não tenho nada contra brancos, você sabe. O seu Raul que vem varrer o jardim aqui por exemplo, eu sempre dou pão pra ele levar, ofereço água. E ele é branco.

– Hum…

– A única coisa é que não sei o que eles vieram fazer aqui, em tantos. Tão tirando os empregos daqui, isso eles tão. Fora que podem trazer doença de lá de onde eles vivem que nem deve ter vacina ainda. Já pensou? Eu só estou preocupada com você, filha.

– Mãe, ela não tá doente.

– Ninguém pode ter certeza. Ainda mais eles assim, em tantos. Já viu o centro da cidade como ficou? Um horror, cheio deles perambulando. Nada contra eles, só ficam atrapalhando o caminho um pouco.

– Quando ela pode vir?

– Ai minha filha, na quinta então, que a empregada vai estar aqui e fica de olho.

– Tá bom

– Mas fiquem aqui em cima. Não vão lá no playground do prédio tá?

– Eu estou de castigo?

– Não, meu amor, só não quero o porteiro e os vizinhos fazendo perguntas depois.

– Perguntas pra quem?

– Pra mim. Ou pior, pro seu pai.

– O que tem o papai?

– O seu pai é africano, filha. Você sabe como ele é tradicional.

– Ele não gosta de brancos né?

– Não é que ele não goste, ele só não acha que eles devam se misturar com pessoas como nós.

– E o que são pessoas como nós?

– Nada, filha. Vai tomar banho.

– Tá bom.

– E me dá seu casaco do colégio que vou colocar pra lavar.

Level Cult Facebook