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Não faça joguinho

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São oito da noite e Joana está quase saindo para o jantar marcado com um cara que conheceu recentemente. A animação para o tal jantar não é das maiores, afinal,  foi tão fácil conseguir esse date. Logo em uma das primeiras conversas, o tal cara já disse “vamos sair para jantar e nos conhecer melhor?” E Joana, acostumada à cansativa enrolação de outros homens, achou aquilo até meio estranho… Normalmente, os outros caras demoravam tanto para propor um encontro… E, em alguns casos, era ainda pior, como o de seu crush platônico, Fábio, que nunca sequer a havia convidado para nada.

Quando ela estava prestes a sair com o tal cara que, definitivamente, não era do time da enrolação, recebeu uma mensagem de Fábio (que, como ela já bem sabia, era praticamente o capitão daquele time).

“Oi”.

Fábio. Sua paixão platônica há quatro meses. <3

Fábio, com quem ela já tinha feito mil e um planos (ele só não tinha conhecimento de nenhum desses planos, mas detalhes, apenas detalhes).

Fábio, que, na cabeça dela, se tornaria um excelente namorado assim que, claro, eles começassem a sair e ele percebesse isso também.

Fábio, cujo único problema era esse: a constante enrolação.

Eles até conversavam, Joana ficava super empolgada, mas a conversa nunca chegava a lugar nenhum, e sempre acabava em frustração:

“O que vai fazer hoje?”, ele perguntava.

“Não sei, por quê?”, respondia, Joana, cheia de empolgação.

“Só para saber”, dizia ele.

Ou então, como em outra ocasião havia acontecido:

“Temos que sair para tomar aquele café, né?” ele dizia, em  pleno sábado à tarde.

“Nossa, é verdade, quais os planos para esse fim de semana?”, ela arriscava.

“Ah, estou fora da cidade. Mas temos que marcar aquele café um dia, né?”.

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Ignorando TODOS esses sinais e fingindo que havia esquecido todos esses joguinhos, Joana sentiu a euforia com aquele simples “Oi” de Fábio crescer em seu peito. Mesmo assim, ela se controlou, e demorou pelo menos 5 minutos para responder:

oi”, limita-se a escrever – em letra minúscula mesmo, para não parecer que estava muito preocupada com a mensagem a ponto de capitalizar o “O”.

Fábio, depois de 17 (!) minutos, escreve:

“Já jantou?”

Joana quase desmaia com a mensagem que estava aguardando há meses. Nos próximos segundos, ela mantém dentro de si um empasse: aquele anjinho no ombro dizia para ela responder “não jantei, mas já tenho planos, obrigada”, fazendo com que ela largasse o celular e seguisse para o jantar marcado com o outro cara; enquanto aquele diabinho, do outro lado, sussurrava “desmarca com o outro menino e agarra a oportunidade que você estava esperando há meses”.

Difícil… Mas o diabinho, infelizmente, venceu, e ela desmarcou o jantar que tinha combinado com o outro cara. Deu uma desculpa qualquer para ele e pediu perdão ao universo, torcendo para que o karma não voltasse para atormentá-la, pelo menos dessa vez. Respondeu para Fabio.

“Não jantei. E tu?”

Mais 15 minutos de espera. 15 minutos que pareceram uma hora inteira e em que ela seriamente começava a cogitar a hipótese de se jogar contra as paredes do quarto, tamanha a aflição.

“Não jantei… me bateu uma fome…”, ele diz.

Coração acelerando a cada mensagem.

“Tu mora aqui pelo bairro, né?”, ele pergunta.

Joana, a essas alturas, já está separando a melhor roupa para vestir para o jantar tão esperado por ela.

“Sim, moro”, ela diz, rindo sozinha em seu quarto, mandando prints da conversa para as amigas.

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“Hmmm, acho que vou ir para a academia”, ele responde.

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Fim da história.

Joana, depois dessa conversa louca, acabou sem date algum, já que dispensou o certo para arriscar com o duvidoso, que, mais uma vez, a deixou com cara de pastel.

Você pode pensar que essa é a parte do texto que vai te dizer que “não adianta, a gente gosta do complicado mesmo, eu não culpo a decisão da Joana, ela gostava era do outro cara, que fazia joguinho, ela não gostava do cara que foi direto…”.

Não. A Joana fez errado. Não siga os passos dela.

É provado que nós nos atraímos mais por aquilo que é difícil, mais complicado. Aquela frase que você repete desde a escola não é exclusividade sua não, tem milhares de pessoas dizendo isso por aí: “Só quero os que não me querem. Os que me querem, eu não quero”.

Para com isso.

Você já parou para pensar o que ganhamos repetindo essas ideias? No caso de Joana, nada. Inclusive, perdeu. Pois poderia ter jantado com um cara que, quem sabe, teria sido ótimo para ela. Em vez disso, preferiu dar força para o joguinho.

Não faça joguinhos. Não escolha o complicado. Apenas descomplique. Fale a real (mas com jeito) que não quer sair, que não quer conhecer, que só quer mesmo é ficar batendo papo no Whats. Mas não iluda, não crie expectativa, não demore 17 minutos para responder uma mensagem importante. Não seja o Fábio. Não enrole as pessoas e, principalmente, não aceite ser enrolado.

Quando você para de fazer joguinho, você para de perder tempo, de mandar mensagem à toa, de desmarcar planos por nada.

As pessoas acham que precisam fazer um joguinho para conseguir o que querem. Na verdade, é quando você para de fazer joguinho que você consegue o que você quer. Há até quem diga que, quando você para de fazer joguinho, você faz sexo.

Dizem que quando a gente vai ficando mais velho, nossa tolerância pro joguinho cai bastante. E é verdade. Mas você vai realmente querer ser aquela pessoa que passou a juventude inteira jogando? Escolha perder a paciência com o jogo antes disso.

Afinal, quando você para de fazer joguinho, coisas lindas acontecem. Ou, pelo menos, ACONTECEM.

 

Por Valquíria Vita

valquiria@txtconteudo.com.br

Valquiria Vita
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